Do Grande Irmão ao STF: quem vai regular a internet do nosso “1984”?

Quando a câmera foca a sala da “casa mais vigiada do Brasil”, milhões de espectadores acompanham, em tempo real, quem chorou, quem votou e quem vazou um segredo estratégico no Big Brother Brasil — nome escolhido em homenagem direta ao “Grande Irmão” onipresente de 1984, o romance de George Orwell em que um regime totalitário transforma vigiar e punir em rotina doméstica. Setenta e seis anos separam a primeira edição do livro e o feed que você desliza agora, mas a pergunta de Winston Smith permanece intacta: quem controla as telas que nos observam?

No Brasil de 2025, essa interrogação deixou a ficção e virou pauta legislativa. O antigo PL 2630 (“PL das Fake News”) já não está em votação: Arthur Lira arquivou o texto em 9 de abril de 2024 e prometeu discutir uma proposta inteiramente nova. Ao lado dele corre o PL 4144/2024, que delega à Anatel o poder de multar redes que abriguem desinformação reincidente; a proposta, porém, continua parada na Comissão de Comunicação da Câmara, sem parecer nem data para avanço.

E, se o Congresso tarda, o Supremo avança: em 11 de junho de 2025, o STF formou maioria para derrubar a blindagem do artigo 19 do Marco Civil — hoje esse dispositivo exige ordem judicial para remover postagens. Com a nova interpretação, plataformas poderão ser responsabilizadas sem ordem, sempre que o conteúdo for “manifestamente ilícito”. O julgamento ainda não terminou, mas o placar já garante mudança de rumo e desperta receio de remoções preventivas em massa.

Defensores da regulação lembram que o país já pagou caro por deixar o ecossistema digital ao léu. Grupos extremistas mobilizados via WhatsApp e transmissões ao vivo no YouTube tiveram papel reconhecido na escalada que culminou na depredação dos Três Poderes em 8 de janeiro de 2023 — episódio que o ministro Alexandre de Moraes classifica como “manual de manipulação algorítmica”. Sem regras de transparência, dizem eles, boatos viram gasolina eleitoral; crianças seguem expostas a desafios de sufocamento; a pesquisa acadêmica continua cega diante do poder dos algoritmos.

Mas cada nova linha regulatória carrega sua própria sombra. Se plataformas passarem a responder financeiramente por conteúdo alheio, existe o risco de over-blocking: melhor remover tudo o que pareça polêmico do que arriscar uma multa milionária — efeito que pode suprimir a voz de minorias, tal qual o Ministério da Verdade apagava versões inconvenientes do passado em 1984. Também preocupa a hipótese de captura política: quem nomear diretores da futura agência reguladora terá, na prática, alavancas para pressionar adversários on-line. Start-ups locais temem um “cartel regulatório”, pois só as gigantes teriam fôlego para bancar equipes jurídicas e auditorias contínuas.

Na outra ponta, deixar tudo como está consolida um cenário em que decisões sobre o que vive ou morre no debate público pertencem exclusivamente a empresas estrangeiras. O usuário banido enfrenta formulários obscuros, enquanto perfis que incitam violência voltam com um clique. Foi assim que as correntes golpistas germinaram até florescer nas praças de Brasília, provando que a ausência de prestação de contas pode custar caro à democracia.

Entre o vigia total e o vácuo regulatório, o Congresso brasileiro procura um meio-termo que lembre mais um confessionário do BBB do que a temida Sala 101 de Orwell: um espaço onde o cidadão fale, seja ouvido — e saiba por que seu post ficou ou caiu. Transparência de algoritmo, direito de defesa antes de remoção e obrigações pedagógicas sobre desinformação são pontos de convergência que despontam mesmo entre bancadas rivais, mas nenhum texto consensual chegou ao plenário até agora.

A saga legislativa está longe do fim, e é aqui que você entra. Na distopia de 1984, comentar não era opção; no reality show, comentar é o jogo. Então pergunto: até onde deve ir o “Grande Irmão” brasileiro? O freio que salva a conversa pública pode também travar a liberdade que fez da internet um palco plural. Deslize para baixo, deixe seu parecer (você ainda pode) — e, enquanto isso, lembre-se de quem está olhando para quem.

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