Como a leitura correta das pesquisas eleitorais pode decidir o rumo de uma campanha
No episódio mais recente do podcast Moqueca de Política, Mário Bispo, diretor do Instituto Data Censos, compartilha reflexões fundamentais sobre o uso de dados na estratégia eleitoral. Fundado em 2012, o instituto é referência em pesquisas de opinião no Brasil, e a experiência acumulada por Bispo revela um cenário em que o entendimento dos números vai além da estatística: trata-se de uma ferramenta essencial para decisões políticas conscientes e campanhas mais eficazes.
Durante a conversa, Mário explica que uma característica comum no início das campanhas eleitorais é a elevada taxa de eleitores indecisos — algo em torno de 40% a 50% entre os meses de junho e agosto. No entanto, esse número tende a cair significativamente nos últimos 15 dias que antecedem a eleição, quando os eleitores estão mais atentos às propostas e aos candidatos. Esse período final, segundo ele, é crucial para captar as mudanças de percepção provocadas por debates, escândalos ou reviravoltas políticas. Assim, a coleta e análise de dados atualizados são indispensáveis para entender o comportamento do eleitorado e ajustar estratégias em tempo real.
Mário também aponta erros recorrentes cometidos por políticos ao lidar com pesquisas. Muitos, ao se depararem com dados positivos como baixa rejeição ou boa aceitação se acomodam e deixam de investigar aspectos mais complexos da percepção pública. Quando os números são negativos, preferem desacreditá-los, baseando-se em impressões subjetivas de suas equipes ou no “sentimento das ruas”. Essa atitude, segundo ele, é um grave equívoco. Ignorar ou manipular dados é, nas palavras de Bispo, “um atalho para a derrota”. Além disso, ele critica o foco exclusivo na intenção de voto, que muitas vezes deixa de lado indicadores fundamentais, como a avaliação do governo atual, a confiança na figura do candidato e as demandas específicas da população.
Um ponto alto do episódio é a distinção entre pesquisa quantitativa e qualitativa. A primeira funciona como uma fotografia de determinado momento, útil para medir tendências gerais. Já a qualitativa, comparada por Bispo a uma ressonância magnética, permite mergulhar nas emoções, motivações e resistências do eleitor. Através de métodos como grupos focais, é possível entender o que está por trás de uma rejeição ou de uma escolha, fornecendo material valioso para moldar mensagens e propostas de campanha com mais precisão.
O diretor do Data Censos também aborda a crescente desconfiança em relação às pesquisas eleitorais, impulsionada pela polarização política e pela circulação de desinformação. Ele reconhece que existem institutos que atuam de forma antiética, “vendendo resultados” e comprometendo a credibilidade do setor. Para ele, a única forma de combater esse problema é com rigor técnico, transparência metodológica e compromisso com a verdade dos dados.
Outro tema abordado na entrevista é a atual configuração da polarização política no Brasil. Segundo Bispo, historicamente o Sul e o Sudeste sempre foram regiões mais alinhadas à direita, enquanto o Norte e o Nordeste costumavam apoiar candidatos de perfil mais progressista. No entanto, ele aponta uma mudança em curso: há um aumento de eleitores que se identificam com a direita no Nordeste, mesmo que suas opiniões econômicas e sociais não estejam totalmente alinhadas com o ideário conservador. Esse fenômeno, segundo ele, revela uma política cada vez mais personalista, onde a identificação direta com lideranças como Lula ou Bolsonaro se sobrepõe ao entendimento ideológico.
A conversa também explora o impacto das mídias digitais na comunicação política. Para Mário, os meios tradicionais como televisão, rádio e jornais perderam espaço para redes sociais como Instagram e WhatsApp, que se tornaram os principais canais de informação para grande parte do eleitorado. Ele observa que grupos políticos de direita têm se saído melhor nessa arena, com mensagens curtas, diretas e emocionalmente marcantes. A esquerda, por outro lado, frequentemente enfrenta dificuldades ao comunicar ideias de maneira clara e acessível, caindo em discursos longos e técnicos que não engajam o público.
Por fim, Mário oferece conselhos práticos para novos profissionais de marketing político. Ele defende que o papel do estrategista não é tentar mudar o político, mas sim aprimorar suas qualidades naturais e construir narrativas autênticas, que ressoem com a realidade do eleitorado. Ele reforça que nenhuma campanha pode ser profissional se não estiver fundamentada em dados. A informação, para ele, é o ponto de partida e o norte de toda estratégia eleitoral séria.
O episódio reforça uma verdade inescapável: em tempos de polarização, sobrecarga de informações e mudanças rápidas de cenário, a política que ignora os dados corre o risco de falar sozinha. Já aquela que ouve, interpreta e age com base na realidade das pessoas, tem mais chances de conquistar a confiança do eleitor e vencer nas urnas.
Assista o episódio completo: https://youtu.be/ZYI0vgH6MJk